Abílio Gonçalves Nunes

 
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Do alto de seus 70 e pouco anos Abílio descobriu um dom incomum para a música. Foi só juntar o gosto pelo violão, amigo antigo, com a parceria vocal de Antônio para ver a criatividade desaguar em mais de 300 letras e canções. O caseiro da chácara que erguera sobre uma pirambeira em Atibaia foi sua dupla e incentivador dessa carreira tardia, com 80 músicas registradas e até CD gravado. Não fizeram shows por falta de disposição.

Os versos falavam do amor à terra e à esposa, Adelaide. Escrever dava-lhe prazer; era dono de uma das melhores caligrafias da família, facilmente identificável nos trabalhos escolares dos filhos.

A verdade é que Abílio sabia se virar como poucos. Nunca dependera completamente do emprego de eletricista na Eletropaulo para manter a si e a própria família. Fazia bicos de pedreiro e de limpador de fossa, montou uma fábrica de brinquedos de madeira, vendeu bonecas na rua e de uma feita chegou a aprender a consertar eletrodomésticos e até abrir uma lojinha só para ensinar uma profissão ao filho Wagner. O temperamento curioso mantinha-lhe sempre em movimento.

Abílio perdera a mãe com apenas oito anos em Sāo Manuel, interior de São Paulo. Foi criado na capital com o irmão, José Carlos, pelo pai, Moisés Nunes, um marceneiro artístico português. O homem resistiu à ideia de mandá-los para um internato e abriu mão de outros relacionamentos pela opção de criar os filhos.

A adolescência transformou em amor da sua vida Adelaide, a vizinha da casa da frente, alvo preferencial de provocações infantis e até de cascas de laranja até então. Foram ambos arrebatados, e o namoro curto deu lugar a um casamento e três filhos. Seguiu até o fim da vida completamente apaixonado por ela.

Fazia malabarismo em diferentes atividades, mas não permitia que a esposa trabalhasse. Mais, encolerava-se quando ela sugeria um arranjo do tipo. Para contribuir, Adelaide economizada ao máximo no lar e cuidava dos filhos. Ao lado do marido teve uma vida boa, sem luxos, mas com direito a mimos ocasionais. Seu aniversário era sinônimo de surpresas, fossem pequenos presentes, comidas ou até algum móvel para a casa.

Versátil que só, Abílio se destacava também na cozinha. Dominava a arte de feijoadas, bacalhoadas e pastéis capazes de reunir ao redor de si, sem grande esforço, família e amigos. Foi esse o avô que conheceram seus sete netos e dois bisnetos.

A saúde já fragilizada pela idade um dia tomou um baque com uma gripe, logo depois da esposa. Foram ambos internados, ela teve alta, ele não. Na sequência de complicações, dividia-se entre a vontade de descansar enfim e a de não ir embora para continuar cuidando dela. Aos 86, venceu a primeira. Partiu em ótima companhia, ladeado pelas filhas Neuci e Joana, e por Adelaide, o amor de sua vida.

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