Alaor Nunes

 
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Alaor não teve uma infância propriamente feliz em Muzambinho, Minas Gerais. Perdeu a mãe, Francisca, com apenas quatro anos e com o afastamento do pai, Antonio, foi criado com uma irmã por diferentes tias. Lembrava com tristeza desses tempos, quando era colocado para fora de casa, no escuro, para parar de chorar. Só sua natureza pacífica o impedia de se revoltar. Lutaria sozinho contra essas e outras dificuldades, mas encontraria boas companhias no caminho.

Seu pai retornou quando tinha cerca de nove e, devagar, a vida daquele menino começou a melhorar. Ganhou uma madrasta, Geralda, e outros três irmãos por parte de pai, que ajudou a criar. Antonio era pedreiro e em pouco tempo levou a família para São Paulo. Alaor achou serviço ainda menino em uma mercearia. Anos depois, sonhou em ser contratado na agência do Banespa do outro lado da rua, mas era pobre e não tinha roupa para uma entrevista. O dono da vendinha decidiu ajudá-lo emprestado um terno e tudo mudou.

No banco conseguiu estudar e alçar voos maiores. De lá foi para duas firmas menores de tratores até chegar à empresa Lyon, sempre na parte administrativa. Se aposentaria nesse emprego, mas o jeito ativo o impediria de parar de vez, e passou mais 20 anos dirigindo um táxi.

Ainda jovem conheceu Célia, vizinha de sua tia Gonçala, a quem ia visitar aos finais de semana. O pedido de namoro se desdobrou em casamento e passaram a morar na casa geminada que construíra ao lado da do pai. Essa união também lhe trouxe uma nova família, e sentia-se muito acolhido pela sogra, Angelina. Com a esposa, teve Regina e Luciana e 16 anos depois o neto Leandro, o sonhado filho que não viera antes, e Amanda. Viviam todos juntos.

Com esforço e um passo de cada vez foi vencendo na vida e se organizando financeiramente. Foi um dos primeiros do bairro a ter telefone, televisão, carro zero. E com o dinheiro alugava uma casa de praia em Santos para relaxar com a família e pescar. Eventualmente comprou um imóvel em Itanhaém.

Apaixonado por construção e reformas, como seu pai, pôs o lugar abaixo e foi erguendo outra do zero. Foi sua diversão, sempre de pá na mão, cimento e tinta, sempre subindo escadas. Planejava durante a semana o serviço para executar no sábado, devidamente paramentado com o seu macacão, a “roupa de briga”.

Viveu saudável e disposto até o tumor no cérebro. Uma cirurgia lhe garantiu mais nove anos, ainda que em cadeira de rodas. Sem reclamar ou se revoltar, viveu tempos felizes com a família no entorno, curtiu seus quatro netos e conheceu três bisnetos. Teve os cuidados e carinhos de Célia, contou suas piadas. A doença eventualmente reincidiu, desta vez definitiva, e Alaor deixou para trás essa vida de vitórias e de amores que construiu sozinho, mas cercado de boas companhias.

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