Ana Francisca da Cunha

 
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Ana nunca deixou de fato Murtosa, a pequena cidade litorânea portuguesa onde nasceu, viveu, casou e teve dois filhos. Nem quando veio para o Brasil começar vida nova, vendo a família crescer ainda mais. A opção reafirmada pela fartura, o gosto pelas delícias de sua terra, a paixão pelo mar e até o gênio mais temperado pelos ventos ibéricos que pela candura tropical, tudo sobreviveu à travessia atlântica, já indissociável de si.

Ainda criança em Portugal, precisou abandonar os estudos para ajudar a família com o único irmão. E foi justamente no serviço, vendendo peixes na feira, que conheceu Manuel. O casamento lhes trouxe o primogênito, Manoel, mas quando o bebê Domingos ainda estava em sua barriga o marido partiu para o Brasil em busca de uma vida melhor. Passariam-se cinco longos anos antes de poderem se ver novamente.

Reservada, Ana não se queixou durante esse tempo, vivido com as crianças na casa da mãe, Maria Luisa. Mas a saudade ao apartar-se dela rumo a terras brasileiras era notória. Assim como o pesar anos depois pela impossibilidade final do tão sonhado reencontro.

A segunda vida com a família começou ainda perto do mar, em Santos, onde mais uma vez vendeu peixes, desta vez ao lado do marido. A mudança para São Paulo marcou também uma troca de atividade. Manuel abriria uma padaria, ajudado por Ana, que ainda por cima cuidava da casa e dos outros cinco filhos do casal, já nascidos na terra nova.

Foi mais rígida que o marido na educação deles, mas orgulhava-se das conquistas dos seus. Paradoxalmente, as maneiras por muitas vezes austeras transformavam-se na companhia de amigos, vizinhos e compadres. Nestes momentos tornava-se muito comunicativa, feliz ao receber visitas e reunir a todos em volta da mesa para uma refeição ou mesmo café da tarde.

Gostava de poder proporcionar fartura nesses momentos, e o sangue português sempre falava alto na forma de bacalhaus, vinhos e doces como aletria, sua especialidade e fonte de memórias afetivas para os filhos até hoje.

A lembrança do mar provocava-lhe tanta saudade que depois de se aposentar terminou mudando com o marido para Itararé, praia de São Vicente. Só voltaram de lá quando a idade começou a limitar a independência. Ana tinha diabetes, problemas cardíacos e hipertensão, mas foi o alzheimer a doença mais incapacitante.

A memória já enevoada manteve vivas, porém, as lembranças do neto Marcos e da filha Ana Paula. Teve outros 10 netos e chegou a conhecer três dos futuros bisnetos antes de partir em 2009, senhora de dois mundos.

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