Anna Santos de Souza

 
Obituario-Anna-Squarespace.png

As festas juninas que Anna organizava em Itaquaquecetuba, onde viveu com o marido e com a família de uma das duas filhas, eram esperadas com antecipação na vizinhança. Começara como promessa, mas pegou gosto pela coisa e das suas mãos saíam quentões, vinho quente, bolos e as delícias capazes de reunir ao redor de si as pessoas queridas. Fazia tudo, como tantas coisas em sua vida, com muito amor.

Gostava da vida calma do interior, dos últimos 20 anos de serenidade por lá. Era o ponto final de um caminho iniciado em Guarapari, no Espírito Santo. A infância feliz, cuidada pelos 9 irmãos, deixou boas memórias. Amava andar à cavalo, ir aos bailes com eles, costurar com as irmãs. Viviam todos na roça, e ajudava a família fazendo a sua parte no plantio do café.

Na mudança para São Paulo passou a trabalhar como doméstica na casa de uma família de italianos. Tomava ônibus e bonde até o serviço e no caminho ouvia todos os dias o bom dia de um moço elegante. Até de repente não o ver mais. Antes de se questionar sobre o paradeiro do admirador, eis que ele ressurge, desta vez na feira, todas as vezes. Seu recato permitiu apenas uma aproximação lenta com José, e foram se conhecendo até engatarem um namoro e depois casamento.

Anna viveu para as duas filhas, dando o seu máximo em cuidados e afeto, mas seguiu trabalhando como doméstica. Batalhadora, não gostava da ideia de depender do marido, de precisar pedir dinheiro. Foi atrás do seu, até aposentar-se em um consultório médico, limpando e fazendo comida.

Quando chegaram os netos sua vida iluminou-se mais uma vez. Ficou muito tempo com David, auxiliou na alfabetização de Camila durante as férias da pequena, e ajudou a criar Danielly Aparecida. A vinda da bisneta, Larissa, seu xodó e paixão, foi um dos maiores presentes de sua vida.

Já na calmaria de Itaquaquecetuba distraía-se costurando suas próprias peças íntimas. E volta e meia animava-se com algum pano e decidia fazer uma roupa. O avançar do Alzheimer, porém, tornava o caminho da ideia à máquina de costura mais e mais tortuoso.

A grande fé de Anna e sua devoção ao catolicismo não foram suficientes para que realizasse o sonho de casar de véu e grinalda na igreja. José não partilhava do mesmo ardor e a união deles deu-se apenas no cartório. Isso não a impediria de seguir frequentando os cultos e de rezar o terço em casa. Nos últimos tempos, recebia a visita de gente da paróquia para comungar no lar.

Aos 92 seu corpo achou por bem enfim descansar. Somaram-se ao coração frágil e à diabetes dois AVCs e um infarto cerebral. Anna distribuiu amor em vida e soube como poucas agregar os seus. Foi certa disso e no conforto da fé em Deus.

Primaveras Digital