Antonio Alves da Silva Filho

 
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A história de Antonio é dessas reviravoltas dignas dos roteiros mais tocantes. Jovem, chegou a dormir na rua, a tirar o sono da família, e a perder o controle da própria vida para o álcool. E, em uma reversão de fortuna baseada na força de vontade, paciência e sobretudo no amor, terminou a vida à frente de uma creche e de um projeto social atendendo 300 famílias.

Para entender como uma mudança tão marcante foi possível é preciso compreender a potência dos nossos sentimentos mais sublimes e a infindável disposição para ajudar das pessoas próximas. Fora o único filho homem do pai, Antonio, e da mãe, Marinete. Criado em uma casa humilde e na companhia e nos mimos de sete irmãs no Ceará, acompanhou a família como retirante para São Paulo ainda criança. Na cidade grande, contava como não ficou um dia sem emprego.

Para ajudar a família, trabalhou desde os nove anos. Como feirante, em uma bicicletaria e como vendedor. Anos depois, passaria a beber, e quando isso ocorria dormia na rua e ficava dias sem voltar. Não queria preocupar a família e fazê-los sofrer, e por falhar nisso foi internado em uma clínica pelo pai. Essa experiência seria um ponto de inflexão importante em sua vida ao colocá-lo em contato com o trabalho da Igreja.

Atuando na pastoral Legião de Maria, da paróquia Nossa Senhora da Livração, apaixonou-se por uma colega, Maria das Dores. O namoro trouxe casamento e a única filha, Luana. Os primeiros tempos foram difíceis, com recaídas e internações, mas o acompanhamento com a psicóloga Ângela garantiu que se curasse do alcoolismo após alguns anos.

Tornou-se motorista de ônibus, e com um empréstimo do pai comprou uma pequena casa de três cômodos no Bairro dos Pimentas, em Guarulhos. A vida parecia ter se estabilizado quando a trajetória de Antonio se corrigiu pela segunda vez. Aposentado por conta da hepatite C, observava as mães da comunidade sem poder trabalhar por não terem com quem deixar as crianças.

Começou a fazer sua parte na Pastoral das Crianças da paróquia do bairro. Preparava sopas e monitorava a desnutrição dos pequenos. Logo tornou-se coordenador da comunidade Santa Maria, uma capelinha, extensão da paróquia. Certa feita derrubou-a e a reconstruiu com a ajuda dos homens do bairro. Nem consultou o padre. Dominava um grande poder de persuasão: fez carnês de contribuição, comprou material e reuniu trabalhadores.

Antonio queria mais e decidiu fundar uma entidade social. Com a educação formal limitada a apenas alguns anos de Ensino Fundamental, contou com a ajuda de outra psicóloga, Luciene, na burocracia do projeto. Era uma creche, ocupando a sua própria casa, que a essa altura já havia se expandido e contava oito cômodos. Voluntariamente desalojado, alugou uma pequena residência para si e para a esposa e a filha.

A Associação Sementes do Amanhã começou com abrigando apenas 30 crianças, com apoio da prefeitura de Guarulhos. Atento, as percebia vulneráveis na rua e teve a ideia de implementar um projeto social com aulas de artesanato, informática e esportes, além de acesso a biblioteca e alimentação. No Projeto Mundo Melhor elas se mantinham ocupadas no período oposto às aulas, e parcerias garantiam presentes em datas festivas e até palestras para as mães.

O tanto de energia que colocava fora de casa não o deixou descuidado das necessidades de dentro. Sempre preocupado com a educação de Luana, garantiu que tivesse o melhor estudo que podia pagar, até a faculdade. E foi com alegria que bancou a festa de casamento dela. Para a esposa, tentou ser o melhor marido. Companheira, ela trabalhou na creche até quando conseguiu e confiou nas ideias dele, mesmo as mais loucas.

Antonio podia ter descansado mais, podia ter passeado e viajado mais. Fez de tudo o quanto pôde, a creche era sua prioridade. Sabia como poucos a importância da ajuda para quem está socialmente vulnerável e lutou para garantir que outros jovens não passassem pelo que passou. O fígado, depois de lhe aposentar, permitindo a mudança radical de vida, enfim disse chega. E assim se foi, uma força de mudança a ter tocado a vida de tantos, além de seus mais felizes sonhos.

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