Antonio Felipe de Souza

 
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Alguns preferem a certeza de se saberem donos da própria narrativa, das glórias e também dos percalços do caminho da vida. Antonio foi uma dessas pessoas. Com a ingenuidade, o entusiasmo e a inconsequência das crianças deixou da família e o luxo para trás. E com a vivência da maturidade preferiu seguir fazendo a sua história do zero.

Foi com surpresa e excitação que, com apenas oito anos, conquistou a permissão da mãe, Maria Aurora, para se mudar de João Pessoa para São Paulo. Era completamente fascinado pela metrópole brilhante da TV, e ansiava viver aquilo de perto logo, sem paciência para os estudos. Ganhou dela uma mochila arrumada e o número de uma tia em um bilhete. Era um adeus prematuro ao pai, Odilon, e à bela casa onde crescera com seis irmãos.

Era também o início das suas aventuras. Desde a viagem de um mês em pau de arara - divertida aos seus olhos de criança - até a vida difícil no opulento lar da tia Eva. Não se adaptou por lá e contaria por anos como ela o cerceava e até mesmo escondia comida. Preferiu mais uma vez tomar o controle do próprio destino: se fosse para ficar assim preferia a rua.

A sorte lhe pôs no caminho o dono de um posto de gasolina próximo à rodoviária do Tietê. Afeiçoado à inteligente e bem-humorada criança pedindo emprego no seu estabelecimento, decidiu ajudá-lo. Antonio morava e trabalhava no lava jato, acolhido desta vez como um filho. Oito anos depois, essa mesma figura paterna pagou pela sua habilitação, o tíquete para sua independência financeira.

Foi motorista de ônibus, de caminhão de gás, de carreta de concreto - orgulhava-se de ter ajudado a construir a cidade cobrindo os trilhos dos bondes. Com a primeira mulher da sua vida, Geni, teve três filhos e uma boa vida, mas o relacionamento não resistiu ao tempo.

No serviço de taxista na rodoviária conheceu Joanina, funcionária de um dos guichês de venda de passagens. Acolheu seus filhos Paulo, que já morava com a avó Iracema, e Marcos, a quem criou na casa comprada para a nova família como se fora seu também. Com a esposa teve, além de uma união invejável, a menina Bruna.

Romântico inveterado, cobria a mulher de flores e de bilhetinhos e fotos, e ela apreciava a paixão do marido, sólida mesmo com o passar dos anos. Passearam bastante juntos, de idas ao shopping a viagens ao interior e ao Paraná para visitar a família dele. Mais velho, distraía-se jogando dominó e saindo com os amigos do bairro. Tinha nos papos sobre política uma das suas grandes paixões, era algo incontornável.

Só retornou à terra natal duas vezes. Doou sua parte das impressionantes 16 casas que o pai deixou para cada um dos filhos. Dizia não ter vivido em João Pessoa e por isso também não querer nada de lá. Também passou a achar absurda a decisão da mãe de tê-lo deixado partir tão jovem. E mesmo sem ter experimentado o amor de pai e de mãe, esforçou-se para fazer diferente com os filhos, desdobrando-se em carinhos.

O falecimento da esposa, após 35 anos juntos, foi um baque inesperado. A saúde se deteriorou rapidamente, enquanto perdia a visão para a diabetes. Seguiu independente em casa, mas as idas à ruam complicaram-se. Queixava-se de saudade de Joanina, nunca amara ninguém como ela, e nas últimas semanas passou a dizer que queria ficar junto da mulher novamente. Quando soube da passagem da sogra, Iracema, teve a crise cardíaca que o levaria também.

Mesmo tendo negado o dinheiro da família, Antonio logrou construir um patrimônio do zero e ainda por cima dar conselhos. Deixou duas casas para seus filhos e falava que se precisasse começar tudo de novo começaria. Essa lição de vida ficou para os nove netos e cinco bisnetos.

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