Antonio Rodrigues dos Santos

 
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Talvez tenha sido a sua natureza amorosa, inocente, e dada ao apego que o impediu de deixar o Ceará de uma só vez. Mas mesmo casado e com filhos, Antonio foi chegando em São Paulo à sua maneira. Passou mais de uma década trabalhando por temporadas na cidade grande, sempre como garçom ou assistente de cozinha, para depois retornar ao seu Nordeste.

Voltava à esposa, Zenaide, aos cinco filhos, à casa sem luz elétrica ou água encanada, mas cheia de gente, de alegria e de festas. Voltava também à roça, seu principal ganha-pão desde a infância. A cada nova incursão ao sul ia levando um dos seus amigos de longa data ou algum dos filhos deles. Seus dois meninos mais velhos, Rodrigo e Antonio, já haviam partido definitivamente para lá. E aos poucos foi replicando o seu entorno na selva de pedra

Formou em São Paulo uma grande família, ao costume cearense, como muitas visitas e pouca cerimônia. Aos 47, movia-lhe a busca por oportunidades, possibilidades e mais conforto para os seus. Abriu um comércio, teve banca de pastéis com cocada artesanal, foi garçom por muitos anos e aposentou-se como segurança, inclusive em casas noturnas de amigos da sua terra.

Antonio era desses sujeitos doces e puros, amigos dos abraços, da pele. Fazia questão de longas prosas, de contar seus causos do Nordeste, de receber gente na sua casa, de dar atenção. Estabelecia rapidamente parcerias de afeto, de carinho e de amor com quem fosse já no primeiro encontro. E geralmente era correspondido.

Sua personalidade expansiva sentia-se especialmente em casa com o lar cheio de gente, à mesa com ele, provando um bom baião de dois, sua especialidade. Fora parte do que preservara da ligação com o Nordeste porque depois da vinda definitiva para São Paulo pouco voltou ao Ceará. Guardava esse desejo, alimentado pela memória da última visita, com festança e churrasco. Matava a saudade da roça no sítio de um sobrinho em Ibiúna.

Curtiu e ajudou a criar seus netos, gostava de mimá-los e de passar o tempo com eles. E foi quando um dos meninos faleceu, com apenas 21 anos, que sua saúde, estável após vencer um câncer, passou a também faltar. O baque foi demais para aquela aquela personalidade amorosa e inocente. Antonio partiu deixando saudosa uma família do tamanho do mundo.

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