Benedita Aparecida Gimenez

 
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Benedita foi uma mãe para suas irmãs, para seus filhos e até para alguns dos netos. Mais velha entre quatro meninas, já era mocinha quando nasceu a segunda. As duas seguintes vieram na mesma época das suas próprias crianças. Nascida para cuidar e educar, fez isso também pela geração seguinte.

Da cidade de Garça, interior de São Paulo, ficaram poucas lembranças porque a família veio cedo para São Paulo. Nas paqueras veladas nos parquinhos e igrejas conheceu João, o primeiro e único namorado. Envaidecida da própria beleza, nunca esqueceu a maneira como as pessoas a olhavam quando era jovem. Mas com esse primeiro namorado formou a própria família, aos 19.

Ficou para trás a curta carreira em uma tecelagem, substituída pelos filhos gêmeos Valdir e Valter, além de Vagner, Vladimir, Valmir e Vilma. A caçula, muito esperada após cinco homens, foi a deixa para a retirada do útero e ovários, procedimento anticoncepcional comum à época.

Viveria doravante dedicada a eles e ao bem-estar de sua família. Cuidava da casa, da limpeza, da cozinha e das roupas como ninguém e essa certeza, e orgulho, a acompanhou até o fim. Valorizava essas qualidades em uma mulher, especialmente nas que se interessavam por seus filhos.

O marido era comerciante autônomo e empregava os filhos. Já Benedita dava duro para cuidar do lar e de todos. Contava com a cumplicidade das outras donas de casa da vizinhança, com quem formou laços fraternos. As amizades foram um presente das quase cinco décadas de Cangaíba, na zona leste de São Paulo.

Quando o primogênito, Valdir, faleceu, assumiu a pedido dele a criação dos netos Guilherme e Bárbara. O acerto incomum permitiu à viúva, Cleonice, concluir duas faculdades e construir um patrimônio. E possibilitou a Benedita tornar-se mãe novamente, cuidadora como eram seu instinto e natureza, enquanto a nora provia. Aos seus olhos, os filhos e netos lhe pareciam os mais bonitos e talentosos, e desdobrava-se, generosa, para ajudá-los.

Mais jovem gostava de jogar dominó e ludo com eles. Também apreciava um bom bingo, apesar de não os frequentar. As idas eventuais aos jogos organizados pela igreja eram o assunto por dias. Enquanto a idade e a saúde permitiram, participou de excursões para seus destinos favoritos, as cidades com águas termais como São Lourenço, de Águas de Lindóia, Caxambu, Poços de Caldas, Águas de São Pedro, entre outras.

Roberto Carlos era outra paixão, especialmente seu trabalho mais religioso. Frequentemente a rádio AM que a embalava para além das fronteiras da insônia tocava uma ou outra dessas canções. Realizou um grande sonho quando em 2011 assistiu ao vivo a vencedora Beija-Flor homenageando o seu cantor favorito durante o Desfile das Campeãs do Carnaval. Já o desejo de ver os 11 netos casados e com filhos provou-se um pouco mais elusivo. Teve porém já no fim da vida a honra e a alegria de conhecer, e segurar nos braços, o bisneto Ravi, filho da neta Rebeca e neto do filho Vagner.

Já no hospital e frágil aos 83 anos, sustentava-se por aparelhos após uma trombose no intestino. Inconsciente, recebeu ali as visitas da nora Cleonice e dos netos Bárbara e Guilherme, que pôs para tocar, como fizera tantas outras vezes, sua canção favorita do Rei, “Jesus Salvador”. Quase como se fora combinado, partiu assim, embalada pelos versos sobre paz e fé.

Benedita pedira diversas vezes a Guilherme que tocasse essa música em seu velório. A despedida dela deu-se inteira embalada pelas canções de Roberto Carlos, como certamente aprovaria.

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