Dejanira Souza Ribeiro Santana

 
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Dejanira teve em vida apenas dois sonhos: saúde e felicidade. Se a vida não lhe permitiu o primeiro, o segundo realizou plenamente, superando as vicissitudes do caminho como se nada fossem. Ninguém a viu triste, chorando desconsolada por alguma das desventuras que vivera porque esse sentimento simplesmente não existia, vencido pela alegria e pela fé tão suas.

Mesmo durante a infância difícil, enxada na mão para ajudar os pais na pequena plantação de mandioca, feijão, milho e laranja em Boquim, interior de Sergipe. Era a segunda filha mais velha entre Dez, a primeira ficava em casa, cuidando dos outros. Lá mesmo conheceu José e com ele teve quatro meninas e um menino antes que ele a deixasse com as crianças por cuidar.

Repetiria o sistema da sua infância, mantendo Isaira, filha mais velha, em casa cuidando dos pequenos e levando Jocilene, a segunda, para a roça. Lá colhiam laranjas e enchiam caminhões de carga. Foram nove anos de penúria, difíceis especialmente para as crianças, até a sorte virar de maneira inesperada.

Sua madrinha, Railda, lhe falou de um amigo viúvo em São Paulo e perguntou se aceitaria conversar com ele por telefone. Na vida simples não havia meios para obter uma linha, então Aurelino ligava para o posto telefônico mesmo. Foram três meses de papo até a proposta: que viesse para São Paulo para casar com ele. Mandaria duas de seus sete filhos até o Nordeste para buscá-la.

E assim foi, casaram-se três meses depois e permaneceram assim por 26 anos. Os filhos de Dejanira foram se mudando aos poucos para a cidade grande - não se conformava enquanto não estivessem todos perto dela novamente. E a vida mudou para melhor: Aurelino era perdidamente apaixonado e a tratava como rainha, sustentando-a com o salário de chef de cozinha. Ela largou o trabalho pesado para cuidar da casa e das filhas mais jovens dele, que a aceitaram como mãe.

Terminou de conquistar o marido cozinheiro pela boca. Era com fascínio que provava seu feijão nordestino, a carne de panela com batata, o mocotó, seus bolos e compotas. Não dispensava a comida da esposa mesmo recém-chegado do restaurante e ainda perguntava o segredo dessa ou daquela receita para reproduzir depois. Pelas lentes do amor dele, até o café e o ovo frito dela eram incríveis, mas as proezas de Dejanira na cozinha eram mesmo notórias.

Dejanira distraía-se como muitas assistindo suas novelas na TV. Mas, como pouquíssimas, dava tanta atenção, ou até mais, aos jogos de futebol. Só dormia depois do último e um mero amistoso no domingo era uma bom programa para não sair de casa. Não tinha times prediletos e seu entendimento das regras era rudimentar, mas vibrava muito com os gols. E evitava magoar os familiares em clássicos e finais torcendo para quem estivese ganhando.

Realizara o sonho da felicidade, mas aos 48 percebeu o sonho da saúde mais longe de si. O primeiro câncer surgiu na cervical. A doença retornaria em diferentes partes do corpo por mais 18 anos. Sua fé e a vontade de viver e lutar inspiravam: "Nunca se culpe da minha doença, todo mundo precisa passar por algo e eu preciso passar por isso", dizia aos seus. Um dia falou ao pastor da igreja que lutaria pela vida até o último dia, e o fez, dando força para os outros.

Já no hospital pela última vez ficou sabendo por Iasmim, uma de seus nove netos, que seria bisavó. Seu chute sobre o sexo do bebê provou-se acertado, mas o coma duas semanas depois e a partida a impediram de sabê-lo. O garoto foi batizado em homenagem a Dejanira. Décadas antes, ainda em Sergipe, sonhara com a casa ainda mais cheia de filhos. Se pudesse teria um time de futebol completo e ao menos outro filho homem. Chegou a dar à luz, mas ele não sobreviveu, assim como um par de gêmeos perdidos na gravidez. Seria Benjamin o nome do filho que não tivera, o nome do bisneto recém-chegado.

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