Genil Fabbro

 
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Foi o trabalho a definir a passagem de Genil por esse mundo. Da infância, menos marcada pelas brincadeiras no interior e mais pelo serviço na torrefação do pai, Adelelmo, até a correria vida adulta, os longos deslocamentos, a rotina extenuante. Se faltou sossego, o fruto pode ver no sorriso inocente dos três filhos bem alimentados e saudáveis.

Da Piratininga natal onde vivia com três irmãs, um irmão, pai e mãe partiu aos 18 para Bela Vista, interior do Mato Grosso do Sul, para servir ao Exército. Nunca esqueceria aquele tempo, especialmente os treinamentos na cavalaria, rememorados com mais e mais frequência conforme a idade, e eventualmente o Alzheimer, foram avançando.

Poucos anos depois, a volta para casa deu-se em Duartina, onde o pai havia comprado um movimentado hotel com o dinheiro da venda do negócio anterior. Mais uma vez mergulharia no trabalho familiar, desta vez como garçom. No Hotel Central chegou a experimentar a sensação única de ver seu trabalho fazendo bem à cidade, quando entregava a comida do restaurante no presídio da cidade.

Genil tinha 21 anos e já acumulara bastante experiência quando obteve sua primeira carteira de trabalho, registrado como funcionário da Riachuelo. Mas foi pouco depois, nas Casas Pernambucanas, onde permaneceria até os 39, que conheceu Neusa. A futura esposa e mulher de seus três filhos fora à loja para comprar tecido, sem saber que sairia de lá com muito mais.

As crianças - Maria Ângela, Flávio e Renato - nasceram lá mesmo em Duartina. Aos 40, Genil levou todos para Guarulhos, onde encontrariam mais oportunidades e o apoio das suas irmãs, que já viviam lá. A nova e extenuante rotina na metrópole significava poucos tempo com os filhos fora dos finais de semana. E abriu caminho para o álcool. Apesar do hábito de beber à noite em casa ou na padaria com o pessoal do bairro, sua honestidade e caráter se sobrepunham: estava de pé pela manhã e nunca perdeu um dia de serviço.

Foi cobrador de ônibus e trabalhou em outras lojas até sofrer um grave atropelamento e passar sete dias internado, seguido de dois anos de licença médica. Neusa passou a trabalhar como doméstica para ajudar em casa, e Genil nunca mais voltaria a ser lojista. Recuperado, passou a vender facas e facões como ambulante.

Seguiu em outra ocupação pouco usual ao anotar as apostas do jogo do bicho em uma banquinha de jornal de fachada. Não era de jogar e foi até detido brevemente por contravenção, mas logo voltou à atividade e nunca chegou a acreditar que isso afetasse negativamente a sociedade.

A atenção que não conseguira dar aos filhos sobrara aos netos Eduardo, Renan, Ana Clara e Fernando. Fazia questão de não perder as festas juninas nas escolas, as formaturas e apresentações. E a convite do filho Renato foi fazer serviços leves na indústria metalúrgica dele. Foram mais de duas décadas lá, com a carga e as horas de trabalho diminuindo progressivamente com a idade. Só parou em 2018 quando o Alzheimer diagnosticado um ano antes tornou-se severo a ponto de impedi-lo de andar na rua.

Em casa, porém acostumado a uma vida inteira de labuta, seguia acordando cedo e arrumando a bolsa para sair. Precisava da esposa para lembrá-lo da aposentadoria recente, mas esquecia-se logo depois. Nascera para produzir, mas complicações de uma doença pulmonar e um AVC o levaram enfim a descansar. Sabendo-se vencedor.

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