Gilmar Bispo Felipe

 
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Acompanhava a índole amistosa e simpática de Gilmar uma escuridão que nunca soube acomodar ou mesmo domar. O vício no álcool, insidioso a resiliente, determinou os limites da sua breve passagem, mas não foi o suficiente para o impedir de amar e de ser amado de verdade.

Nasceu na cidade de Assis Chateaubriand, no interior do Paraná, mas veio criança para São Paulo com os pais Inácio e Felisbela. Na metrópole ganharia mais alguns irmãos - somariam nove - e teria uma infância normal e saudável, culminando em uma adolescência de trabalho e de responsabilidade.

Chegou a participar do grupo de jovens da igreja nesses tempos, mas por volta dos 19 anos a bebida passou a ditar a direção e o ritmo dos seus passos. O vício foi tomando conta conforme se entregava aos poucos. Com o tempo, nem o trabalho como motorista de empresas foi suficiente para ancorá-lo.

Nos bons momentos era um sujeito articulado e bom de papo, incapaz de fazer o mal a outra pessoa. Era querido pelas crianças e pelos adultos do Parque Uirapuru, bairro onde morou a vida inteira, e por onde vivia mesmo após se mudar de lá com a mãe.

O violão era seu hobbie e paixão. Fosse sóbrio ou ébrio, realizava-se cantando louvores ou ainda pagodes de Bezerra da Silva e de Zeca Pagodinho. Nos momentos de devaneio incorporava policial da ROTA, médico, veterinário. Seu coração dava vazão aos desejos não ditos e talvez até desconhecidos da razão, soterrados na névoa do álcool.

Entre internações clínicas propostas pela família, com uma em especial se alongando por três anos, ficava aos cuidados da sobrinha e vizinha, Vanessa. Era também ela quem o procurava quando tinha recaídas e sumia, reaparecendo na rua. O entorno foi se acostumando, entre impotente e resignado, em oferecer o amor e cuidado que pudesse suportar e aceitar, ao tempo dele.

O Natal e o Réveillon de 2018 foram, em retrospecto, um tipo de despedida. Gilmar passou as datas se sentindo bem e ao lado da família na casa de sua mãe, tocando violão e cantando louvores. Partiria meses depois. Seus familiares lembram com carinho desse momento e também do velório, parte do que não puderam oferecer a ele em vida. Foi amado como poucos, ainda que às vezes não fosse capaz de perceber.

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