Hilda Maria Passos Araújo

 
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Hilda viveu uma infância idílica, colhendo frutas, legumes e verduras no quintal de casa com seus cinco irmãos para serem preparados pela mãe. A vida de chácara em plena Salvador de Jorge Amado, nos anos 30, fugindo de cobra e perseguindo galinha, sugeria uma existência tranquila que terminou por se materializar, mas não sem sua dose de desventuras.

Começando pelo falecimento do pai e um pouco depois da mãe. Tentando abraçar o mundo sozinha, criou sozinha quatro sobrinhos, filhos de irmãs que partiram para o Rio de Janeiro e não tinham mais condições de sustentá-los. Também ela não tinha, mas tentava à sua maneira e com pouca ajuda dividia seu pão.

Formou-se bordadeira no Instituto Mauá, e no que seria seu único trabalho criava peças vendidas na cidade e até em São Paulo, para onde eventualmente se mudaria. Mas antes, precisaria conhecer o pedreiro José Araújo. Enamorados, partiu ele para a metrópole no sul, para construir a casa onde viveriam. Quando já era possível entrar no imóvel, voltou para buscá-la.

Nunca mais voltariam, à exceção de uma viagem surpresa comprada por Denise, filha nascida após o primogênito Danilo. Foi para eles uma mãe presente, levando e buscando na escola e chamando a atenção quando necessário. Em dias de maior traquinagem, apenas colocava o cinto confeccionado pelo marido (o calibre foi aumentando com a idade das crianças) em cima da mesa. Quem usava era ele. Os filhos lembram dessa época entre divertidos e gratos pelas lições.

A organização de Hilda fez dela a administradora dos proventos do lar. Tinha consigo uma mistura de diário e controle financeiro, onde anotava não só gastos, mas também as atividades corriqueiras da família. Não por acaso, dominava uma memória prodigiosa. E saciava essa necessidade intelectual com livros, principalmente os romances espíritas. Devorava um atrás do outro, independente da espessura, e volta e meia ganhava um de amigas ou tomava emprestado.

Seu jeito vaidoso contrastava com o pendor caseiro. Se todo dia passava leite de colônia no rosto, e nas eventuais saídas eram indispensáveis perfume, bijuterias e penteados, preferia o lar e suas novelas. Apreciava samba, forró e sertanejo, mas, ao contrário de José, um autêntico “Rei do Bolero”, não gostava de dançar, apenas de assistir. Ainda assim era companhia divertida, dona de uma conversa solta e risada única que desarmavam o entorno.

Um problema grave na coluna a impedia de ficar muito tempo em pé. A bengala foi sucedida por um andador e eventualmente por uma cadeira de rodas. Sentada, sobravam a leitura, palavras cruzadas e a missa do fim da tarde na TV. E a companhia do pequeno neto e xodó, Thiago. Fã precoce de Elza Soares, divertia a avó com as imitações infantis da cantora.

Uma pneumonia somada a complicações nos rins e coração dificultou a vida até o ponto limite. Hilda precisava descansar e enfim o fez, orgulhosa da vida e dos amores colhidos no caminho.

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