Josefa Mulero Nuñez

 
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José gostava de dizer, em tom de brincadeira, que se não casasse com a noiva, Josefa, ela viria a nado atrás dele direto da Espanha natal dos dois. O chiste dava boa medida do jeito determinado dela e do que era capaz de fazer por amor aos seus. O marido desembarcara sozinho no Brasil no pós-guerra, mas tencionava trazer pai, mãe, irmãos e o seu amor. Casaram-se por procuração para a jovem de 24 anos poder cruzar o oceano com sua nova família.

Deixava uma infância e uma adolescência difíceis na Europa devastada pelo conflito. Perdera a mãe ao nascer e fora criada pelos tios em meio às privações daquela época. Ainda criança ganhou no povoado de Águilas o apelido de Pepa das Batatas, porque as roubava das barraquinhas para vender depois.

Engravidou ao chegar e passou a cuidar dos filhos enquanto José tocava a oficina mecânica que abrira com os dois irmãos. Para seus três meninos e uma menina, Pepa foi uma leoa, superprotetora ao extremo e igualmente carinhosa e amorosa. Gostava de ter todos sob as suas asas e foi assim também quando chegaram as noras, seus seis netos e dois bisnetos.

Choque cultural não houve e o maior entrave, a dificuldade com o português, foi driblado pelo casal na base do portunhol. Entendiam, faziam-se entender e acabaram contagiando a família com esse idioma no meio do caminho. Todos aprenderam alguma palavrinha e foram atrás da cidadania espanhola. Hoje já há quem faça o trajeto inverso dos avós, como a neta Letícia, vivendo na Espanha deles há quatro anos.

A vó Pepa sabia bem neutralizar o jeito mais autoritário do marido. Fingia aceitar, mas ia conduzindo as situações do jeitinho dela até conseguir o que queria ao fim. "Se sua mulher cismar que você tem que se jogar de um penhasco, reze a Deus para que seja baixo", resignava-se José em outra das suas reveladoras e impactantes frases.

Gostava de cozinhar delícias da sua terra como paellas e tortillas, mas seu maior prazer era mesmo comer, especialmente na companhia da família. E, incomum que só, amava os registros fotográficos desses momentos. Precisava sair em todas as fotos e onde tivesse gente reunida pedia retratos. Curtia ser o centro das atenções, e invariavelmente o era.

Sonhou viver até os 100 anos. Não de qualquer jeito, claro, mas com saúde, comendo bem e aproveitando as festas como poucos. Nesses eventos era sempre a primeira a chegar e a última a sair e ai de quem não a convidasse. Fossem a um aniversário, ao se despedir ela e José invariavelmente desejavam felicidades ao aniversariante e, desejosos de vida, faziam votos de serem testemunhas dessa alegria materializada no ano seguinte.

Chegou perto dos 100 com rara vitalidade e lucidez. Acompanhava-a de perto nos últimos tempos a filha Nena, cuidando das limitações de movimentos da idade e a mimando sem dó. E mesmo com a saúde firme, uma pneumonia e alguns dias de internação foram suficientes para levá-la. Realizou-se além dos seus sonhos no longo trajeto que separou a Pepa das Batatas de décadas atrás da vó Pepa de ontem. E realizou também a todos ao seu redor.

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