Josefa Roeda de Freitas

 
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Josefa chegou a desmaiar naquele momento, tal qual as donzelas nos filmes. Manoel aparecera de surpresa no seu serviço, fardado e pedindo sua mão em casamento, o sorriso e a expectativa estampados no rosto. Gostara dele desde sempre. Cresceram juntos, quando o então menino passou a ser criado pela avó dela. Sempre houve algo entre os dois, um eloquente não dito, mas afastaram-se quando ele saiu de Jaú para São Paulo com o sonho de seguir a carreira militar.

Daí a surpresa do reencontro, pouco depois de ela ter recusado a proposta de outro pretendente ainda por cima. Depois do tão sonhado “sim”, deixaria para trás a juventude confortável com cinco irmãos e seus pais. Salvador era comerciante e teve uma frota de táxis enquanto a mãe, Carmen, cuidava das crianças e do lar. Esperavam-lhe na capital uma realidade com mais aperto financeiro e trabalho, e 67 anos de vida conjugal.

Nesse tempo tiveram dois filhos, Edson e Izildinha, para aumentar a felicidade. Apesar de ser um oficial, o soldo de Manoel não era suficiente para sustentar a todos e ademais Josefa tinha vocação própria. Montou, seguindo a tradição de sua família, uma lojinha no Jardim Japão, onde viviam. Levaria para as ruas de terra de outrora roupas, aviamentos, artigos de papelaria e até encomendas, tudo adquirido na “cidade”.

Doravante conhecida como “Dona Zefa” fez seu nome no bairro. Ajudavam-lhe, além do talento natural para os negócios, seu jeito amistoso, atencioso e expansivo, diferente do temperamento mais fechado do resto da família. Josefa sentia um prazer genuíno em jogar conversa fora com os clientes da sua lojinha, seu único hobbie além da costura ocasional.

Edson e Izildinha não tiveram uma infância das mais fáceis. Manoel trabalhava direto no quartel e Josefa ficou tempos hospitalizada por um problema na coluna. Conseguiram, no entanto e para alegria e realização da mãe, se formar na faculdade. Ele em computação e ela em medicina.

Entre os netos vindouros - Fábio, Alexandre e Felipe - Josefa praticamente criou Nathalia, que nunca a viu parar quieta. Quando a família enfim a obrigou a fechar a lojinha, montou uma espécie de comércio clandestino na lavanderia do apartamento. Queria seguir vendendo, nem que fosse só para as suas amigas. Sua mente era reconhecida como a mais afiada da família, mesmo com a idade avançada e a pouca escolaridade.

Era grande e expansiva na sua fé. Rezava no seu altarzinho para a sua família e não raro rumava até Aparecida para cumprir alguma promessa. Mais, incitava os filhos e netos a fazerem o mesmo. Nutriu nessa época o sonho de ser bisavó, mas nenhum dos netos quis filhos.

Absolutamente lúcida e segura de si viu Manoel partir em fevereiro. Passara 67 dos seus já 89 anos ao lado daquele homem por quem era completamente apaixonada. A famigerada farda, a esgrima, os saltos de paraquedas, tudo nele a fascinava. E sem sua companhia a saúde já frágil balançou pela última vez. Nathalia gosta de dizer que a avó partiu na véspera do Dia dos Namorados para passá-lo ao lado do seu amor. Cuidara bastante dele no fim da vida, agora seriam só amor.

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