Luiz de Souza Lima

 
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A história de Luiz confunde-se com a do Parque do Carmo, em São Paulo. Além do jeito afável, da simpatia a conquistar o entorno naquelas mais de quatro décadas no bairro, fora também um dos primeiros moradores. Sua rua tinha apenas outras três casas quando ergueu a sua. E logo emprestava os próprios braços para ajudar os futuros vizinhos com as residências deles, ou ajudava na igreja local. Viu o bairro crescer ao redor de si.

Fora até dono de um dos inescapáveis barzinhos, parceria com a esposa, e ativo aos 93 anos involuntariamente revestiu a vida de um caráter de perenidade inevitável. O único daqueles primeiros desbravadores a permanecer vivo, dava mesmo a impressão de que permaneceria para sempre vivendo em sua casa.

A longa trajetória por lá fora na verdade a sua segunda. Em Cedro, no Ceará, descobrira a vida e o trabalho precoce ao lado de cinco irmãos. Tangia o gado da família a cavalo e trabalhava a terra. Assim conheceu a primeira esposa. Ficou viúvo e com três filhos para criar quando envolveu-se com Maria de Lourdes. Era amigo dos cunhados dela.

Maria costumava dizer que ficara com dó daquele homem e casara-se para ajudá-lo a cuidar das crianças. Os cinco filhos que teriam juntos nunca acreditaram de todo nessa versão, suspeita confirmada no riso discreto de Luiz quando o assunto vinha à tona. Talvez a mãe não soubesse reconhecer ou falar de amor, assunto incomum às uniões da época.

São Paulo era muito falada naqueles tempos, um lugar para buscar uma alternativa de vida melhor, livre das privações da seca. Reinstalado com a família Luiz foi ajudante geral nas Casas Bahia, porteiro em uma empresa e segurança em outra. Era difícil mudar de emprego pois era querido nesses lugares. Algo a ver com a sua personalidade estável, responsável e avessa a riscos. Não dava um passo sequer sem muita certeza do que estivesse fazendo.

Emocionalmente foi pai e mãe para as crianças. Enquanto Maria amava à sua maneira mais reservada, ele era puro doce. Um olhar bastava para disciplinar seus filhos, na falta disso uma conversa bastava. Não gostava de brigas em casa e sua tristeza era palpável quando elas ocorriam.

Mesmo aposentado tinha dificuldade para permanecer parado. Apesar de não ser especialmente afeito a bares, abriu um em frente à sua casa, para passar o tempo com a esposa. Seu prazer era comprar engradados de refrigerante no mercado para botar no estabelecimento. O sonho de retomar o negócio, fechado para cuidar da saúde da esposa, que se deteriorava, não pôde ser realizado. Quando ela partiu era ele a ficar mais frágil.

Vontade de viver nunca faltou, porém. Fazia todas as tarefas domésticas e chegou até a procurar a carteira de trabalho poucos meses antes falecer. Teimava em não descansar, queria produzir. Mas a saudade da esposa foi mudar tudo. E em pouco mais de um mês todas as complicações de saúde que nunca tivera manifestaram-se de uma vez. Luiz deixou 21 netos, 15 bisnetos, cinco tataranetos, um mar de saudade.

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