Maria Ramos Gomes

 
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De nada adiantará tentar demover Maria daquela ideia. Uma vez decidida a partir com Cloves para São Paulo não tinha mais medo das ameaças da mãe, com quem ainda vivia aos 31 anos. E com a coragem de quem se lança de olhos fechados rumo ao desconhecido, foi começar naquele momento a sua segunda vida.

A existência em São Raimundo Nonato, no Piauí, correra na dureza do trabalho na roça e na casa com seis irmãos. Sem grandes sobressaltos tirando a sofrida perda do pai, Miguel, por quem era apaixonada. Daí impacto da chegada de Cloves, que morava em São Paulo e visitava ali uma prima. Conheceram-se em uma festa e trocaram cartas por meses. Maria era analfabeta, quem lia e escrevia em seu nome era também uma prima, sua.

Um dia, o então namoradinho avisou que estava voltando para buscá-la de vez. O casal teve três rebentos, Fidel, Flavia e Fabiana; e Maria chegou a visitar a terra natal com as crianças, mas seria a última vez.

A parceria com Cloves era invejável. Nunca brigaram na frente dos pequenos ou de ninguém e tornaram-se um modelo a ser copiado pelos filhos, hoje também casados. “Ela dizia que briga não leva a nada, melhor esperar esfriar a cabeça e falar outro dia. Eles se entendiam no olhar, era muito lindo”, lembra Fabiana.

O marido sustentava a família com um confortável salário como mestre de obras, enquanto Maria mantinha o lar e cuidava das crianças. Aos 45 ele teve um AVC. Foram quatro anos de cuidados dela até a recuperação completa e a volta ao trabalho dele, mas outros cinco incidentes como esse se seguiriam até a inevitável partida anos depois.

Maria nunca foi de sair, só para os cultos aos domingos, já nos últimos tempos. Não tinha hobbies, mas gostava de cozinhar, frango cozido ou bolinho de fubá para seus filhos e depois para os netos. Teve sete, Nicolas Miguel, em homenagem ao seu amado pai; Agata; Anthony; Pedro; Brenda; Davi; e Bianca. Foi uma avó apaixonada por todos.

Tinha uma saúde boa, mesmo após um AVC há três anos, até complicações sucessivas a levarem. Ainda em vida, manifestava a índole bondosa e afeita a ajudar sonhando em ter dinheiro suficiente para não deixar ninguém sofrer ou morrer de fome. Se o devaneio era por definição inalcançável, o bem que fez aos seus foi concreto como a sua existência aqui.

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