Odette da Costa Mattos

 
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A poucos privilegiados é dada a chance de uma existência plenamente realizada após um início duro. Odette logrou essa reviravolta na própria vida e conquistas muito além do que um dia, ainda menina, se permitira sonhar. Filha de pais de origem portuguesa, passou a infância vendo o pai, Plácido, dando duro em chácaras e padarias de Guarulhos, enquanto a mãe, Adélia, cuidava da casa. Nunca esqueceu as carências materiais daqueles tempos.

Talvez justamente por conta delas, teve apenas um irmão e uma irmã mais novos. Com a menina e para ajudar na situação financeira do lar, empregou-se aos 14 em uma tecelagem. O serviço na fábrica durou pouco, até conhecer o marceneiro, Braulino, e com ele casar e repetir os passos da mãe com apenas 16 anos. Ficaria no lar, criando os rebentos vindouros, a dificuldade financeira persistente.

Costurava para fora, uma forma de tentar equilibrar as contas, e chegou a trabalhar como diarista. Ocasionalmente recebia alguma ajuda dos pais. Com sacrifício compraram um terreno no ainda pouco habitado centro de Guarulhos e lá ergueram uma casinha simples, quarto e cozinha. Faltava até sapato para os pés, mas ela segurou as rédeas da família.

Nessa época já dedicava-se ao que seria sua maior paixão: o lento e por vezes minucioso trato com a plantas. Seu quintal foi tomado por elas, de arbustos a árvores, uma explosão de vida a lhe fazer companhia. Seria assim até o fim, com jardins cada vez maiores. Aprendeu botânica sozinha, conversando com vizinhos, perguntando nas floriculturas e mais recentemente pesquisando na internet.

Os filhos já crescidos compraram máquinas de costura e Odette montou uma oficina. Até chamou gente para ajudar e com isso foi mudando de vida. Independente, alugou os quartos vazios da casa com a saída dos rebentos. Fazia ela mesma os bicos de pedreiro, encanador, eletricista e pintor, uma miríade de talentos que impressionava os filhos. Com a situação melhorando, permitiu-se luxos como viagens para Angra dos Reis e até Itália, de onde, acredite, deu seu jeito para trazer mudas de plantas.

A personalidade geniosa e obstinada demandava tudo do seu jeito e não se furtava a discussões, fosse com quem fosse. E a maneira mais enérgica e exigente privou os filhos de um trato mais carinhoso, apesar da infindável disposição para ajudar. Já os netos e bisnetos conheceram uma Odette mais afetuosa.

Era muito seu também o interesse pelas modernidades. Além das plantas e da costura, amava os filmes românticos, as comédias e as películas natalinas da TV por assinatura, que revezava com jogos online no notebook, como Tetris. Os exames eram mantidos sob controle na base da ginástica e das caminhadas matinais diárias com as amigas do bairro. Incentivava os filhos a fazer o mesmo e a comer saudável, para, como ela, querer viver e viver bem.

Dois meses antes de completar 81 fez uma cirurgia de catarata: queria ver bem para seguir andando e jogando. Semanas depois, indo sozinha como de costume para a consulta com o oftalmologista decidiu descer antes do ponto do ônibus para caminhar um pouco. A queda, diagnosticada a princípio como um deslocamento leve de bacia revelou-se uma fratura tarde demais. O edema foi a causa da embolia pulmonar que a levou.

Odette queria muito da vida. Inclusive ver florescer o Ipê comprado especialmente para sua calçada após uma consulta à prefeitura, em frente à casa repleta de plantas. Não houve tempo. A árvore está bem cheia, seus os quatro filhos, oito netos e oito bisnetos verão as belas flores beijando o sol ainda este ano.

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