Rachel Araujo Aguiar

 
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Rachel precisou se virar sozinha durante a maior parte do tempo para cuidar dos seus. Se a vida por um lado não lhe dera trégua, por outro a abençoou com uma família presente e amorosa, que a encheu de orgulho e esteve lá quando mais necessitou deles.

Falava pouco da infância na Bahia, além das lembranças da dureza do trabalho na roça. Mas foi já em São Paulo que seu caminho cruzou com o de Arlindo. Tiveram cinco filhos juntos.

A união, porém, durou pouco. O marido foi levado pela cirrose aos 39, e Rachel se viu sozinha, com cinco bocas para alimentar. Decidida a não esmorecer, logrou esse feito trabalhando como diarista e lavando roupa para fora, em uma rotina que ainda acomodava o cuidado com as crianças. A força tirava da missão de não deixar os filhos passarem pelo mesmo aperto.

“Ela foi uma mãe maravilhosa para todos nós, criou todo mundo muito bem. Era um pouquinho severa com os filhos. E a gente comia o que tinha, ela gostava de fazer uma comidinha simples”, lembra Maria, uma das filhas.

Aos 40, mais um difícil revés: o surgimento de um glaucoma tomou-lhe a visão. A situação de pronto inverteu-se, com os filhos, já empregados, revezando-se em seu cuidado. Não que precisasse de muito, dentro de casa a vida mudou pouco. Devota, passava horas em seu quarto, imersa em orações, ou ouvindo na TV a programação dos canais religiosos.

A cegueira também não lhe impediu de passear, auxiliada pelos filhos, ou de visitar as irmãs e ir a Aparecida, um de seus programas prediletos. Também conseguiu nesse tempo desfrutar da companhia de seus 12 netos e 7 bisnetos. Gostava de tê-los ao redor.

Aos 87 descobriu um aneurisma incurável, que terminou por levá-la também. Foi tranquila ao ver que a situação estável da sua família deveu muito ao seu sacrifício. Partiu como heroína para os seus.

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