Severina Maria da Silva

 
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O coração enorme no peito de Severina foi sua característica mais marcante. Se pudesse ajudaria o mundo inteiro, sentia. Como não podia criou os filhos, muitos sobrinhos e até os dez irmãos, filha mais velha que era. Não sabia ler ou escrever, mas era sábia e para a família tornou-se farol, matriarca e conselheira.

Lembrava com carinho dos tempos tranquilos da infância, mas também não esqueceu as agruras vividas pela família durante sua adolescência. A vida complicara-se consideravelmente para seus pais, José e Sebastiana, na zona rural de Timbaúba, interior de Pernambuco. Alternando períodos entre a cidade e o sítio, os dois procuravam trabalho para alimentar as 11 crianças.

De volta à terra onde plantavam feijão, mandioca, inhame, legumes e verduras aproximou-se de Sebastião, agricultor vizinho e viúvo. Casaram-se, ela com 26 e ele com 57, e tiveram quatro filhos. Depois da união, Severia trocaria a enxada da roça pelo serviço doméstico, cuidando da casa e dos rebentos.

A nova família foi tentar a vida na cidadezinha em uma época difícil, que só melhorou conforme as crianças foram estudando e arranjando empregos. Nessa época adotou um sobrinho, Cristiano, como se fora seu e que nunca mais saiu de perto de si. Aos 59, com os outros filhos já crescidos e com o falecimento do marido, partiu para São Paulo com o menino a tiracolo.

Na cidade grande já vivia sua filha Severina Josefa. A eles juntou-se Maria Eunice, com quem Severina foi morar, acompanhada de Cristiano. Os outros filhos, José e Fernando, chegaram a viver em São Paulo, mas voltaram ao Nordeste.

Desde sempre distraiu-se ao fogão. Fazia uma carne elogiada, pamonha, canjica, pirão, guisado de frango, costela e outros pratos nordestinos. Era boa nisso e sabia - a reação de quem provava sua comida não dava espaço para a modéstia.

Teve sete netos e três bisnetos ao longo da longa trajetória. De temperamento alegre, gostava de conversar, mas também não hesitava nas broncas, e com isso foi conquistando o posto de porto seguro para uma família inteira. “Era vó isso, vó aquilo”, lembra a filha Maria Eunice. E se alguém estava doente a primeira pessoa a ser procurada para socorrer e cuidar era ela.

Seu coração, que parecia não conhecer limites, os tinha ao final. E frente a uma operação de risco, optou por viver bem o quanto pôde com ele. Partiu, mas sua história não terminou ali. Porque segue viva na memória, como espelho de vida, para todos que tiveram a sorte de serem tocados pelo seu amor generoso.

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